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--> Hoje, dia 20 de Maio de 2019

O LUGAR ONDE MORAMOS

Sábado, 30 de Março de 2019 125 visualizações Partilhar

Lembrei-me desta questão porque, há dias, um grupo de pais, numa ilha e localidade dos Açores, voltou a falar da questão do lugar onde os filhos passam os tempos livres.

Queriam eles que os seus filhos, mesmo apesar da transferência dos alunos para outra escola, dentro da política de concentração que tem sucedido nos últimos anos, regressassem à freguesia de origem para o resto do tempo da tarde, aquilo a que chamamos tempos livres.

Não posso estar mais de acordo com eles, porque o lugar onde se mora e onde se cresce é a base do que somos!

Bom! Podem pensar que isto é poesia, mas não é.

Sítios como Angra, Horta ou Vila Franca “fazem” a cabeça de quem lá cresce e mora, de uma forma. São terras que ensinam que depois de uma rua há outra, depois de um caminho há outro, e que, se nos enganamos neste tomamos uma transversal e vamos para onde queremos.

São terras cuja organização nos ensina a liberdade de caminhar e de pensar. Nos ensinam que, se não é bem por aqui que se deve ir, existe, sempre, outra solução disponível logo ali ao lado. São horizontes largos, libertos, que nos mostram que há mais mundo.

Já Évora ou Trancoso, por exemplo, são terras onde há um centro e uma periferia, onde, em tempos mais antigos, as muralhas tinham portas e essas portas se fechavam à noite…

Pensem um bocadinho no que isso faz e “diz” à cabeça de quem caminhe para a escola, durante meses e anos, por ali. E que diferenças de pensar e de ver se constroem, por causa disso.

Não pretendo, com isto, dizer que esta é melhor que a outra. Poderia discutir isso, mas a ideia, aqui, não é essa. O que gostava de deixar claro é que não é indiferente o lugar onde moramos e que este nos molda a vida, o modo de ver e a nossa coragem para encontrar soluções, mesmo para coisas como raciocínio matemático ou outras formas de filosofar a vida e as coisas.

Agora vamos à tal questão dos tempos livres.

Vivemos, hoje em dia, uns tempos em que ninguém explica coisas simples da vida, como aquelas que nos enchiam as tardes, há uns anos.

Quando se retira uma comunidade de crianças do seu lugar de nascimento está-se a fazer mais que isso. Num ápice o que estamos a fazer é a criar estranhos na sua terra, gente que, no futuro, não será capaz de perceber, entender e fazer progredir o lugar onde nasceu.

Que tipo de Presidentes de Junta de Freguesia ou de Câmara? Que tipo de Deputados? Que tipo de técnicos? Que tipo de habitantes estamos a criar quando, só porque é mais fácil, mais barato, ou mais confortável, resolvemos juntar todos num cantinho, até ao anoitecer, quando os pais os vão buscar?

Aquilo que gostamos de referir como a identidade do lugar e das gentes precisa que alguém a vivencie, a use. Que “andem por ali” a ver, a cheirar, a perceber, a identificar e a identificar-se.

Sem pais com tempo para o fazer só os educadores o podem fazer, antes que seja tarde e o mundo à nossa volta se encha de estrangeiros, numa terra que deixaram de perceber como sua e onde, por isso, são incapazes de ver e de construir futuro.

O lugar onde moramos importa!

Colunista:

Francisco Maduro - Dias

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