Azores Digital

--> Hoje, dia 20 de Maio de 2019

TURISMO E CULTURA… E PORQUE É CARNAVAL

Sábado, 02 de Março de 2019 149 visualizações Partilhar

O turismo, seja do ponto de vista de quem recebe, de quem organiza ou de quem promove, tem muito de invasão.

Não usa armas letais, mas tem um impacto, profundo e duradoiro, aos mais diversos níveis.

Nada fica como dantes, independentemente do número de turistas a visitar um local ou uma comunidade. Porque todos somos portadores de uma certa forma de ver as coisas e, desde que entremos em contacto com alguém, todos ficamos diferentes. Nós e os outros.

Por outro lado, um turista nem sempre é uma visita. Aliás não costuma sê-lo, mas há que o transformar nisso, sempre que possível. A diferença nem sequer é subtil. Uma visita tem algum grau de amizade, um turista habitualmente não tem. Uma visita não costuma pagar, um turista paga e, porque paga, sente-se no seu natural direito de receber, em troca, aquilo que acredita que comprou.

Venho com isto tudo porque temos turismo nas ilhas e convém que tenhamos. Por razões económicas, culturais, políticas e sociais. Económicas porque a entrada de dinheiro é boa para as contas; culturais porque recebemos gente diferente, com ideias diferentes e isso areja o pensamento; políticas e sociais porque, de facto, o turismo, apesar das características de invasão, também pode ser um caminho de construção da paz, e precisamos disso, neste mundo actual. Nada é melhor, para um ser humano, do que perceber que não está sozinho no mundo, com problemas que julga só seus.

É por isso que o envolvimento de todos os interessados é fundamental. É por isso que ninguém deve ser afastado dos circuitos por onde o turismo passa.

Porque ele vem ter connosco, e, com poucos ou muitos visitantes, com poucos ou muitos industriais, o resultado será sempre o mesmo, se deixarmos as coisas nas mãos de outros: A vida muda sem a gente perceber, as coisas alteram-se, devagarinho ou depressa, e, um belo dia, tudo mudou!

A questão também não pode ser resolvida criando zonas estanque, do tipo “turistas e profissionais de turismo” para um lado e “nós que vivemos aqui e não queremos ter nada a ver com isso”, por outro. Deixá-lo à solta é que não!

É essencial, portanto, uma perspectiva agregadora, sobretudo num território como os Açores, onde a nossa vida e a nossa cultura são feitas dos impactos sucessivos de ondas, planetárias, de mudanças e choques, ao longo de cinco séculos de vida.

Daí que os agentes culturais não se podem alhear desta dinâmica, nem ser vistos ou tomarem-se como adversários dela. Porque ela é, além de económica, profundamente social e cultural. Porque a cultura é recriação constante. Altera-se e vive, precisamente, de todos os contactos que a rodeiam.

Temos, TODOS, de conhecer aquilo que entendemos por raízes e vivências culturais nossas. De as estudarmos, de as vivermos. De percebermos como podem continuar a existir ou modificar-se sem se destruir. Só assim poderemos saber até que ponto, em que quantidade e como, temos condições de partilhar.

Só se partilha o que se conhece e só assim se pode transformar um negócio, com o impacto de uma invasão, em troca cultural, benéfica para todos.

 

Colunista:

Francisco Maduro - Dias

Outros Artigos de Francisco Maduro - Dias

Mais Artigos