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Entrevista: Reler Vitorino Nemésio é a melhor Homenagem

Domingo, 24 de Fevereiro de 2019 217 visualizações Partilhar Entrevista: Reler Vitorino Nemésio é a melhor Homenagem

Cumprem-se agora 41 anos sobre a morte de Vitorino Nemésio. Que memória evocativa tal efeméride lhe suscita?

Eduardo Ferraz da Rosa (EFR) Em 1999, intervindo numa Vídeo-Conferência nacional a partir da Praia da Vitória e justamente evocativa da passagem dos 21 anos da morte de Vitorino Nemésio, pude testemunhar uma vez mais do valor cultural, literário (poético, romanesco e contista), ensaístico, crítico, sociológico, antropológico, etnográfico e estético da sua vasta e diversificada Obra, naqueles vários géneros, estilos, conteúdos e horizontes de sentido que a integram e constituem como uma das mais ricas produções criativas e originais da Língua e da Cultura portuguesas.

– Agora, neste quadragésimo primeiro aniversário do seu falecimento, vale a pena de facto relembrar a sua vida e obra, começando pelos percursos da sua vida e carreira académica.

Nascido em 1901, na Praia da Vitória – essa terra que na sua escrita será sempre uma entidade tão real quanto imaginada –, este Açoriano passou ali a sua infância, antes de estudar nos Liceus de Angra do Heroísmo (1912) e da Horta (1918).

Partindo depois para o Continente, primeiro para cumprir serviço militar (em 1919) e depois para completar os estudos secundários e frequentar as Universidades de Coimbra e de Lisboa, licenciou-se em Filologia Românica (1931) na Faculdade de Letras da capital. Leccionando já nesta última, viria a doutorar-se (1934) com uma inovadora Tese sobre Alexandre Herculano.

A passagem de Nemésio por Coimbra foi decisiva na sua formação e também na construção de uma imagem de intervenção cultural e cívica, que tem sido acentuada por si, a partir de registos e vertentes diversas que evoluíram e em parte se diferenciaram posteriormente...

EFR – ... Pois... Como é sabido, Nemésio vai para Coimbra em 21 (com 20 anos...), ali permanecendo até 1930 E em 1931 vai para Lisboa, onde acaba a Licenciatura em Filologia Românica, como vinha a dizer. É pois assim seguramente marcante esse período, entre muitas outras acções, oscilações (e iniciações...), associações, militâncias intelectuais, sociopolíticas, literárias e ensaísticas. E também pelas mudanças de Curso, a morte do pai, idas a Espanha com o Orfeão Académico, contactos com Unamuno, Brandão, Ortega; o Paço do Milhafre, a primeira teorização hermenêutica de “O Açoriano e os Açores”, o casamento, os filhos, etc.

Mas, ainda sobre as influências de Coimbra, vale a pena referir aqui o exemplo de um texto de Nemésio sobre António Nobre, figura que os antigos estudantes de Coimbra, no conhecimento da sua tradição, não tem deixado de evocar até hoje E foi mesmo sobre o poeta do que o nosso escritor escreveu, em palavras que a si mesmo poderiam aliás aplicar-se, que na sua poesia estava muito do “breviário da sentimentalidade portuguesa, da nossa concepção emotiva do mundo: os valores morais poetizados, a infância e a adolescência como idade de ouro do homem, a perene recordação da intimidade com coisas e seres”.

Deste modo, analogamente, como pude tematizar antes, este perfil de Homem Português – proporcionada, diferenciada mas extensivamente Açoriano (ou vice-versa...), como nosso ancestral, digo antigo, modo específico de sê-lo – que o jovem Vitorino Nemésio (estudante de Coimbra, agitador de ideias e jornais e panfletos e lutas estudantis, repita-se...) transporta consigo e ali vai aprofundar, ou criativamente redescobrir e problematizar, naqueles cruciais, atribulados, conflituais mas criativos seus anos 20. Os mesmos aliás que constituem os marcos balizadores da sua mais forte ligação inicial (e terminal!) à cidade do Choupal...

Mas, tão seguramente ainda, foi desse mesmo período e das suas vivências, afectos e pensamentos que ficaram as marcas mais fundas e as heranças coimbrãs mais salientes de Nemésio, com os seus pontos altos e as suas planuras, até àquela derradeira e compensatória morada do seu novíssimo regresso de 1978, na travessia que presenciei na velha ponte sobre um Mondego de saudade, distância e proximidade conjuntas...

A obra de Vitorino cedo granjeou projecção nacional, mas acabou por projectar-se à escala europeia e muito especialmente luso-brasileira...

EFR – Sim! Prémio Ricardo Malheiro Dias da Academia das Ciências de Lisboa pelo romance Mau Tempo no Canal (1944); Grande Prémio Nacional de Literatura (1965); Prémio Internacional Montaigne da Fundação F.V.S. de Hamburgo (para Humanistas dos países românicos da Europa); Doutor Honoris Causa pelas Universidades de Montpellier e Ceará; Professor Universitário também na França, Bélgica, Inglaterra, Holanda, Luxemburgo, Alemanha, Suíça e Espanha, – Vitorino Nemésio desenvolveu realmente, ao longo de toda a sua vida, um notável e sistemático diálogo crítico e um vasto trabalho de leitura, meditação e assimilação compreensiva, interior, académica e histórico-civilizacional da Cultura Europeia com os mais importantes parâmetros da Portugalidade em todos os Continentes, mas com especial destaque para a Cultura Luso-Brasileira.

Quais os principais núcleos temáticos que tem estudado na obra de Vitorino Nemésio e que constituíram objecto de abordagem nos seus escritos e nas suas teses académicas?

EFR – A grande riqueza literária e humana de todas as facetas de Nemésio advém bastante da ligação e da mútua pertença que nele se foi criando entre a Vida e a Obra, de tal modo que esta é mesmo a melhor revelação dos percursos daquela...

E desde logo, a vida vivida, os problemas que sentiu, as questões que pensou, as dúvidas, as crises e os mistérios existenciais que se lhe depararam, a par das esperanças mais íntimas e profundas que o moveram, e que estão bem reflectidas em tudo o que disse, escreveu e impressivamente legou ao seu tempo e ainda ao nosso!

Nesta efeméride da sua morte, que melhor homenagem ser-lhe-ia devida?

EFR – Neste mesmo dia 20 de Fevereiro de 2019, tal como naquela efeméride de há vinte anos, e com as mesmas palavras de então em plena vigência nos dias que correm, bom seria retermos ao menos um dos discursos de Nemésio e a sua metódica e sistemática atitude atencional – “Parar, reparar e admirar. Fazer isto às pessoas, como fazemos às coisas” – como norma de humanidade e testemunho do autêntico...

Assim, a melhor homenagem que lhe poderíamos continuar a prestar seria a da releitura potenciadora de sentido e o estudo crítico das suas Obras e do Pensamento nelas plasmado, sem banalizações de linguagem e signos, antes porém no aprofundamento e no aproveitamento pleno, legítimo e fidedigno das suas insuspeitadas dimensões, em múltiplos, convergentes e complementares ramos disciplinares...

– E naturalmente ainda, diga-se mais, nas suas conectáveis integrações de saber, aí incluída uma espécie de arte de viver e assumir uma renovada, aberta e mobilizadora Açorianidade cultivada e culta, alternativa, social, cultural e cívica, cuja falência prática em modelos de suposta auto-governação (infeliz e diariamente falida ou menorizada...) é o contemporâneo contra-testemunho diário de muito do que havíamos todos esperado em anteriores épocas e graus autónomos de consciência histórica emancipadora, quando não pós-colonial, endógena e exógena, interna e externamente presente na vida das pessoas individualmente respeitadas e na existência colectiva das suas comunidades regionais e nacionais de origem e destino!

* Entrevista com o nosso Colunista e Professor Universitário Dr. Eduardo Ferraz da Rosa, publicada no jornal "Diário dos Açores" do dia 24 de Fevereiro de 2019.