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--> Hoje, dia 20 de Maio de 2019

E VIVA A CONFUSÃO

Sábado, 16 de Fevereiro de 2019 188 visualizações Partilhar

… apesar da legislação

Cada vez com mais frequência a gente vê estatísticas e comentários – provavelmente este incluído, também – sobre valores em turismo.

São os cruzeiros, são os voos, são as dormidas, são os transportes, são as visitas.

Uma estatística é um número. Nesse sentido não muda de cara nem de cor. Pode ser aferida, pelo menos em parte, procurando-se que ela nos indique algum tipo de verdade.

Mas um certo e qualquer conjunto de números e tabelas não é uma leitura do Evangelho, nem, mesmo, um trabalho profundo desse tipo é algo que deva ser visto como um Livro do Antigo Testamento.

Um dia, há anos, li uma historieta, que até assumo como ter sido verdade pois, no mundo anglo-saxónico, este humor é muito cultivado.

Havia, na estrada, um cabo atravessado, que recolhia a informação dos veículos passantes, para um estudo de tráfego, os carros passavam e, plim-plim, um aparelho localizado perto registava.

Ora aconteceu que um carro chegou, devagarinho, passou as rodas da frente e parou, saíram alguns rapazes, deixando apenas o condutor, e levantaram as rodas traseiras, de modo que só aconteceu um “plim” e não um “plim-plim”. Feito isto entraram todos e seguiram. Um pouco mais adiante, num daqueles cafés de beira da estrada, a pessoa que viu o preparo abordou-os e perguntou a razão da brincadeira. A resposta foi simples, vamos gostar de imaginar o tempo que o analista vai demorar a perceber como é que “meio carro” passou e aonde estará, no registo, o outro “meio carro”.

É fácil deduzir o que se terá passado. O registo foi declarado nulo e, tratando-se de quantidades enormes de dados, não influenciou nada o estudo.

Não é o que se passa connosco. Dormidas e comidas, chegadas e partidas, alojamento rural ou hotelaria tradicional, são termos interessantes, com que somos bombardeados, mas que a maioria não domina nem tem de dominar. Quem os produz pode fazê-lo. É uma questão de arrumação de ideias.

Saberá quem me lê, que, por exemplo, quando aparece o termo hotelaria tradicional o estudo se esta a referir a hotéis e que isso nada tem a ver com as casas de campo, solares e quintas?

Saberá quem me lê, que, por exemplo, as presenças dos cruzeiros podem aumentar, brutalmente, os números de visitantes, mas que é um quebra-cabeças imaginar o que eles gastam, de facto, localmente?

Vamos ao fim, porque já me alonguei. O turismo que nos entra pela porta dentro é uma actividade com uma dinâmica fortíssima, onde o que é verdade este ano deixa de ser dentro de outros dois, mas que deixa rasto, enorme, ao nível cultural, paisagístico, económico, social.

A nossa capacidade de adaptação é proverbial e antiga. Somos ilhas abertas e visitadas pelo Mundo. A chico espertice e alguma formação pessoal vai resolvendo, mas só fará bem se, quem se preocupa e tem de tratar destas coisas do turismo, passar a promover a inclusão de quem cá mora neste negócio global. Explicando termos e ideias, objectivos, caminhos e… estatísticas. Com contraditório incluído.

Não em tom de propaganda, mas de uma maneira pedagógica, construtiva, inclusiva e permanente.

A gente precisa, com urgência.

 

 

Colunista:

Francisco Maduro - Dias

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