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--> Hoje, dia 25 de Março de 2019

O QUE SUCEDE EM SÃO MIGUEL…

Sábado, 05 de Janeiro de 2019 145 visualizações Partilhar

…não sucede nos Açores!

Sucede, só, na ilha de São Miguel e, mesmo assim, muitas vezes é sabido e visto apenas em Ponta Delgada.

O que acontece na Terceira, nem aragem é, no Faial ou em Santa Maria.

Um evento na Graciosa é algo que só é sabido na Graciosa…

E por aí adiante, seja em São Jorge, no Pico, nas Flores, ou no Corvo.

Um congresso realizado numa ilha só tem impacto nessa ilha. Uma acção de formação, uma palestra, acontecida numa ilha, só tem efeito nessa ilha. Do mesmo modo um espectáculo ou uma feira.

Andar e estar noutras ilhas que não São Miguel, Terceira e, um bocadinho, o Faial, é perceber até que ponto os Açores são, em boa verdade, vários “arquipélagos” de gentes diferentes, que vivem sobre si, a maioria das vezes, esperando pouco das maiores e mais populosas, às vezes sem energias sequer, para esbracejar, outras vezes resolvidas a ir pelo seu próprio caminho.

Talvez não valesse a pena explicar mais o que pretendo, mas quero dizer, com isto, que, infelizmente, a maioria das vezes, as nossas cabeças funcionam em modelo continental e retrógrado, quando, exatamente porque vivemos nos Açores – em ilhas espalhadas por 600 quilómetros de vastidão de mar e céu – devíamos ser capazes de nos organizar doutra forma, de ver o mundo de outra forma, de abandonar esta insistência na ideia de que o mundo é feito de centros e de periferias.

Há muitos anos, um professor do Liceu, em Angra, afirmou, numa aula, que a Graciosa tinha a melhor rede de estradas dos Açores. Perante o nosso espanto, pois muitas das vias nem eram asfaltadas, ele explicou que se referia à possibilidade de uma pessoa poder deslocar-se entre localidades, por vias quase com a mesma distância, sem ter de ir “dar a volta ao mundo”. E comparou com o sistema imperial romano, que se desenvolveu baseado no conceito de que a cidade eterna é que era o centro do mundo, de onde todos os caminhos saiam e aonde todos deviam ir dar.

Refiro isto, porque se sente, claramente, um esforço enorme de fazer e trazer coisas aos Açores, mas o paradigma continua a ser o do território contínuo e isso é fatal para nós, se quisermos ser mais do que ilhas a competir umas com as outras em vez de cooperarmos. Acabamos por ter um congresso “nos Açores”, um espectáculo “nos Açores”, um grupo de turistas especializado “nos Açores”, etc. E coloco as aspas porque, na realidade, apenas aquela ilha percebeu que algo estava a acontecer.

Se, por via das novas tecnologias uma pessoa pode, cada vez mais, escolher onde quer e gosta de trabalhar, em vez de ser obrigada a trabalhar aqui ou ali, devíamos apostar mais nas “estradas” que nos convém e nos modos de comunicar que nos interessam. Está na altura de se procurar que cada ilha saiba o que as outras fazem, como fazem e como é possível colaborarem entre si. Nenhuma pode ser centro, porque desse modo, as outras oito são periferia e isso reduz recurso e gera sobrecargas.

Os Açores são maiores do que pensamos. A nossa cabeça é que insiste, demasiadas vezes, em fazê-los pequenos.

 

Colunista:

Francisco Maduro - Dias

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