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A BATATA NA IDENTIDADE

Sexta, 07 de Dezembro de 2018 361 visualizações Partilhar

Uma batata é um tubérculo, com origem na cordilheira dos Andes. Cultivada, segundo os investigadores, há pelo menos 8 mil anos, foi um grande suporte alimentar do Império Inca.

Espalhada pelo mundo inteiro pelos colonizadores europeus é, actualmente, o quarto alimento mais consumido, do Mundo.

Um texto acerca da ilha Terceira e dos Açores, inscrito num atlas de Ortelius, de 1604, refere que a gente come uma coisa “a que chamam patata”, isto em finais do século XVI. Ainda não consegui saber se seria doce ou da terra, pois sabe-se que já havia plantio de batata, em Inglaterra, em 1597, mas o certo é que a patata já andava por cá.

Com a revolução industrial a batata revelou-se um alimento fundamental para ultrapassar as crises cerealíferas na Europa, adquirindo, definitivamente o peso que hoje tem.

Enfim, o ano de 2008 foi celebrado como o Ano Internacional da Batata, pelas Nações Unidas.

Trago todo este relambório, aqui a estas páginas, porque se continua a insistir em usar batata de mistura com Alcatra!

Ora a Alcatra, o célebre prato típico da ilha Terceira, que agora se vai espalhando por algumas outras, gosto meu de partilhar, mas esperando que isso não signifique o desaparecimento da variada culinária, ligada à época e ás festividades do Espirito Santo, não tem batata. Ponto!

A Alcatra, como várias vezes tenho tido oportunidade de conversar com o meu amigo Grão-mestre da respectiva Confraria, (ele fala da sua querida Alcatra, eu do meu querido Verdelho dos Açores e dos Biscoitos, e partilhamos alegrias e agruras) tem origem diferente, europeia do Sul, e não se consta que tenha sido acompanhada, alguma vez, com outra coisa que não pão. Um pão especial que, em boa verdade, fica a meio caminho entre a massa cevada e o pão de água e se chama pão-de-leite.

É que a Alcatra não é um prato qualquer. É um prato identitário, um prato comemorativo, de um momento especial na comunidade, a época do Espírito Santo, uma das poucas ocasiões em que podiam, ao menos uma vez por ano, meter o dente em carne e saborear pão de trigo. Porque as alternativas, desde o pão de milho, às castanhas, às favas, ao feijão, às batatas… era disso que comiam o resto do tempo.

Quando, sem terem culpa disso, turistas e pessoas menos informadas, pedem batata e salada, para acompanhar, custa muito, muitíssimo mesmo, ver os nossos restaurantes a curvarem a espinha, solícitos, e a albardar a coitada à vontade do cliente, sem, pelo menos, explicarem a razão pela qual, se querem Alcatra com batata, então peçam carne guisada ou assada, com todas as batatas que entenderem, e ficamos todo felizes.

Experimentem ir a uma dessas outras terras e a fazer tropelias dessas com alguma comida “especial” que eles nos quiserem dar! Mandam-nos dar uma volta, explicam que ali é assim e, com o maior sorriso do mundo estampado no rosto, esperam que a gente coma e goste.

Aqui devia ser o mesmo! Porque a nossa identidade não é uma batata!

Post Scriptum: Batata também pode querer dizer mentira, na linguagem comum.

 

Colunista:

Francisco Maduro - Dias

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