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VISITAR OS AÇORES NÃO É SÓ VERDURAS

Sábado, 27 de Outubro de 2018 138 visualizações Partilhar

Nem é preciso gastar muito tempo para escrever isto: a forma como os Açores são divulgados aponta para um arquipélago onde a natureza está bastante intacta e onde os humanos existem de longe em longe, com algum casebre no meio do mato.

Já falei nisto, mas regresso ao tema, porque continua a contactar com gente que, aqui chegada, se espanta com a quantidade de gente, de casas, de estradas, de tudo… e, até chega a perguntar se não existem algumas ilhas desabitadas, que eles pudessem habitar, por uns tempos, esquecendo-se que, dessa maneira, a natureza intacta desses eventuais ilhéus intocados, passaria a fazer parte dos espaços já tocados, quando esses visitantes regressassem à terra de origem.

A gente sabe que, aqui e ali, existem espaços verdejantes, mesmo que de criptomérias e incensos (prefiro chamar faias do norte, mas é só uma questão de local de nascimento meu).

A gente sabe que alguns desses espaços até estão relativamente bem conservados, do ponto de vista da vegetação endémica e das comunidades botânicas e animais associadas, mas…

Mas…, com isso, parece-me que o maior serviço que poderíamos prestar a quem nos visita, fica por prestar.

Mais do que isso, até, parece-me que, fazendo o que fazemos, até ajudamos no acrescentar da volumosa ignorância que por aí pulula, baseada na ideia, peregrina, de que os humanos são uma coisa e a natureza outra, e que podem viver separadas.

Por isso venho a terreiro, como costumo escrever, para falar da colecção, bonita sem dúvida, de percursos pedestres, relacionados com a natureza (deixem-me pôr o intacta debaixo da toalha da mesa e seguir adiante…), percursos esses que, defendendo a sua dama, empurram, para canto, tudo o que seja cultura, assim a modos que vista como algo que nem deveria existir. E falo deles porque dei com os olhos, há dias, num texto de um guia estrangeiro, escrito por um estrangeiro, que dizia quase isto, com todas as letras: “terminando o percurso de natureza que corresponde ao trilho tal e tal, siga adiante e passe pela igreja tal, pelo fontanário tal, pelos campos cultivados tal e tal, pelo que resta disto e daquilo… enfim, COMPLETAVA, com elementos patrimoniais e de cultura, o trilho de natureza que a pessoa fizera antes.

De facto, os Açores são um dos lugares do planeta Terra onde melhor se pode perceber o que é isto de cultivar, conviver, construir vida em conjunto. Onde endémicas, de um lado e do outro do Atlântico, convivem com fruteiras e arvores de sombra dos quatro cantos do planeta, fruto de tudo o que aqui se cruzou, nestas ilhas.

Precisamos, urgentemente, de percursos e trilhos, não de natureza ou de cultura, mas de mistura. Desde logo, e é apenas um exemplo, porque o nosso maravilhoso e endémico cedro do mato, também é o material em que estão feitas muitas das nossas obras maiores de escultura e mobiliário.

O século XXI precisa de reaprender a convivência mais que a tolerância e nós, aqui nestas ilhas, somos um muito bom exemplo disso.

 

Colunista:

Francisco Maduro - Dias

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