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O rebelde mercenário

Segunda, 03 de Setembro de 2018 169 visualizações Partilhar

Passada que está a “silly season” estou de volta a este espaço onde, com regularidade, mais ou menos semanal, venho ao encontro de quem muito bem entender ler o que por aqui fica publicado. Sei que não tenho muita popularidade, nem este espaço que me acolhe ganhará notoriedade por publicar os meus textos, mas quer eu, por razões que mais tarde irei avocar, quer o meu anfitrião consideramos que esta parceria informal, embora os benefícios sejam imateriais, tem algum sentido e vale a pena dar-lhe continuidade.

Pois muito bem cá estamos para mais uma época.  Temporada em que irei procurar que os temas abordados sejam diversos e, sobretudo, promovam a reflexão de quem ainda lê mais do que os curtos textos publicados nas modernas redes sociais que vivem do imediatismo, das imagens e dos sons. De pequenas frases de uma realidade virtual, e aqui o termo virtual tem como significado (Dicionário do Português Atual Houaiss), “… constitui uma simulação de algo criada através de meios eletrónicos…”. Claro que me refiro à disseminação, por meios eletrónicos, de uma ideia criada para induzir uma errónea realidade e não ao atual conceito de realidade virtual.

Já lá vamos a um recente exemplo. Mas antes, como atrás ficou dito, permitam-me deixar uma pequena nota pessoal sobre a minha continuidade neste espaço e a minha necessidade, Sim é uma necessidade, de partilhar o que vou escrevendo e que resulta de uma certa forma de ver e estar no Mundo. Trata-se de exercer um direito e um dever de cidadania, mas também porque sou professor e é do exercício da minha profissão que resultam os benefícios materiais, esta é apenas uma forma, como diz o meu amigo Vamberto Freitas, de dar um pequeno contributo, um retorno, à sociedade onde vivo.

Vamos lá então. Ainda antes da morte do Senador John McCain, em virtude de um ou dois episódios que protagonizou que visavam o atual Presidente dos Estados Unidos, já alguns setores da direita e da esquerda “fofinhas”, este termo é utilizado por alguns amigos que muito prezo, não os vou individualizar, mas eles compreenderão, mas, como dizia ainda antes do seu falecimento já havia algumas vozes a catapultarem John McCain para um patamar social, humano e político muito da distante da realidade, ou seja, porque denegriu a imagem de Donald Trump e endeusou Barack Obama, John McCain passou a ser aquilo que nunca foi. Trata-se da criação de uma imagem, ou para ser mais coerente com o que fui dizendo, trata-se de uma realidade virtual. Tudo aquilo que vier a ser dito depois da disseminação massiva da imagem do bom rebelde criada sobre o Senador McCain, cairá em saco roto. Tenho disso consciência, mas ainda assim vou deixar a minha opinião. Colocando de lado a sua passagem pela aviação naval dos Estados Unidos sobre a qual não faço nenhum juízo pois, enquanto militar cumpriu as missões que lhe foram confiadas e, embora com visões diferentes sobre a guerra do Vietname, respeito o soldado McCain. O mesmo não se aplica à sua vida política, sobre isso até pelas implicações que teve fora do território dos Estados Unidos, tenho direito a expressar a minha opinião que não é tão abonatória como a que tenho lido, após a sua morte, com origem em vários quadrantes políticos.

São conhecidas as ligações do Senador John McCain aos interesses do complexo militar industrial dos Estados Unidos e as suas posições de apoio à intervenção externa dos Estados Unidos. Não as vou referenciar todas, mas deixarei exemplos que bastam para comprovar que McCain não foi a pessoa que a direita e a esquerda “fofinhas”, agora tanto enaltecem branqueando as suas ligações e ações de apoio ao terrorismo internacional, aliás poucos dos Senadores contemporâneos de John McCain terão um histórico comparável ao seu. Antes da enumeração de alguns factos apenas uma pequena nota aquando da sua candidatura à Presidência dos Estados Unidos (2008) em que foi oponente de Obama e que diz bem do conservadorismo fascizante de McCain ao indigitar como candidata à Vice-Presidência a conhecida, pelas piores razões, Sarah Palin.

Uma das qualidades que atribuem a John McCain era rebeldia, ou seja, tinha a sua própria agenda que, nem sempre coincidia coma agenda do Partido Republicano e, por vezes até chegou a ser de apoio ao Presidente Obama, como no caso do “shutdown” imposto pelos republicanos, em 2013, ao não aprovarem o orçamento federal. Por outro lado, ficou também na memória dos mais atentos a forma “cívica” como conduziu a sua campanha às presidenciais dos Estados Unidos, em 2008, que viria a perder para Barack Obama.

Bem, mas esta era a agenda do Senador McCain. Uma estratégia e uma tática muito sua que lhe granjearam prestígio, certamente, mas sobretudo lhe conferiram muito poder, desde logo pelo que decorria do exercício da Presidência da Comissão do Senado para as Forças Armadas e depois pelas ligações e influência, ainda que fora dos holofotes mediáticos, que teve nas intervenções militares dos Estados Unidos, ou no apoio à desestabilização e derrube de governos democraticamente eleitos e a sua substituição por governos fantoches de inspiração neonazi, como foi o caso da Ucrânia, em 2013. Afeganistão, Iraque, Primavera Árabe, que mais não foi do que a antecâmara da invasão da Líbia, mais tarde a Síria. John McCain não teve pudor em aliar-se aos líderes nazis da Ucrânia, nem aos líderes da Al-Qaida, para levar a cabo a sua agenda ao serviço dos “falcões” estado-unidenses, ou apoiar abertamente a intervenção da Arábia Saudita no Iémen. A agenda do rebelde McCain provocou e continua a provocar milhares de mortos entre as populações dos territórios afetados e uma crise humanitária que tem uma dimensão desumana de que os milhões e milhões de refugiados que fogem dos conflitos são apenas uma parte visível de um gigantesco icebergue. Para os interesses do complexo industrial e militar dos Estados Unidos e para a política em Washington DC, McCain poderá ter sido um bom servidor, para o povo dos Estados Unidos e para o Mundo, McCain não passa de mais um mercenário a soldo dos senhores da guerra, tenham eles a nacionalidade que tiverem.

 

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 02 de Setembro de 2018

www.anibalpires.blogspot.com

 

Colunista:

Aníbal C. Pires

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