Azores Digital

--> Hoje, dia 14 de Dezembro de 2018

VAMOS PROMOVER A EMIGRAÇÃO DA NOSSA GENTE?

Sábado, 04 de Agosto de 2018 453 visualizações Partilhar

De vez em quando acho bom partilhar algumas opiniões que me passam pela frente, vindas de visitantes e turistas.

Desta vez, na sequência de algumas que partilhei já, há alguns meses, gostava de vos deixar com outras reflexões acerca da questão das ilhas verdes, de natureza intocada, quase selvagens, que a publicidade insiste em manter e divulgar.

A questão resume-se a isto: as pessoas que vêm visitar-nos sabem ao que vêm ou não?

Pergunto isto porque, nem uma nem duas, ficam profundamente espantadas pela quantidade de gente que aqui mora, vive e trabalha.

Começo por uma frase, dita há poucos dias: “em algumas ilhas ainda é possível ver zonas onde não há gente, mas noutras, quase que se pode percorrer toda a estrada junto à costa passando de povoação em povoação”.

Nessa linha, ouvi, da última vez que andei de avião este comentário: “Tanta casa! Isto está cheio de casas! Pensava que havia menos habitantes!” A resposta do lado foi, igualmente interessante: “Não te preocupes! Vamos a quatro e algumas não devem ter quase ninguém!”

De facto, quem vê as fotografias, mais divulgadas, destas ilhas, veiculadas (não é vinculadas, já agora!) pela publicidade oficial, facilmente constrói uma imagem dos Açores bastante idílica, o que até acho que é verdade, mas com muito pouca gente local a morar por cá.

É um nunca mais acabar de verde, com alguns, poucos, turistas e visitantes, de mochila às costas, quase que “desbravando” as matas e as escarpas.

Claro que as pessoas, ao chegarem cá, sobretudo de verão quando, ainda para mais, todas as ilhas pululam de festas de freguesia e de lugar, todas pegadas umas às outras que é um nunca acabar de arraiais, estarão à espera de um lugar calmo, sossegado e com pouca gente, e dão de caras com terras vibrantes de vida e bulício.

Quanto à natureza intacta, impoluta, e etc., convém perceber-se que, cada vez mais, aparecem pessoas que até sabem do assunto.

Admito que as minhas experiências podem estar enviesadas pelo tipo de pessoas com quem contacto mais, mas a verdade é que começam a ser frequentes pessoas que sabem nomes de plantas, conhecem tipologias de coberto vegetal, sabem de onde veio a Criptomeria japonica ou perguntam em que época chegou o Pittosporum undulatum, ao mesmo tempo que se maravilham com as bananas e os ananases, exatamente porque, por via da tal publicidade voltada para a natureza e a vegetação, se trata de gente que tem conhecimento da matéria.

Naturalmente que existem, também, muitos visitantes que aceitam tudo o que se lhes diz e mostra, mas a sustentabilidade de um destino turístico não se faz dos que aparecem por acaso ou dos que pouco se preocupam e que não tencionam regressar, mas dos que querem perceber o lugar que visitam e podem ser divulgadores capazes, ao regressarem a casa.

A menos que se pretenda favorecer a emigração e saída dos autóctones e indígenas destas ilhas, para poder apresentar os Açores como as terras verdes e selvagens que boa parte da publicidade divulga, está na hora de rever, um bocadinho pelo menos, a imagem das ilhas, acrescentando-lhe o que, de facto é a grande maravilha das ilhas dos Açores: A grande qualidade do modo como elas foram povoadas e a mestria das soluções de ocupação do território que elas revelam.

Voltarei ao tema.

 

Colunista:

Francisco Maduro - Dias

Outros Artigos de Francisco Maduro - Dias

Mais Artigos