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A COMUNICAÇÃO QUE EXISTE POUCO

Sexta, 06 de Julho de 2018 111 visualizações Partilhar

Podia usar este espaço, aqui e nesta altura do ano, para vos apresentar alguns lugares da minha predilecção, por esses Açores baixo, mas prefiro usá-lo para vos trazer à razão algo que está a acontecer, relacionado com o que se decidiu chamar, há umas boas décadas, património cultural.

Trata-se da comunicação. Daquela “coisa” que os teóricos costumam dividir em Emissor, Transmissor e Receptor!

Há algum tempo, mas não muito, a obra do futuro museu judaico de Lisboa foi interrompida.

Não foi por ser hebraico, o que poderia ser visto como politicamente correcto, pelo menos para alguns, mas por ser descaracterizador do local apesar de ser de um arquitecto português, famoso e premiado o que é, provavelmente, muito politicamente muito incorrecto.

O local da implantação é o Largo de São Miguel, em Alfama, a caminho do Castelo de São Jorge, para os menos conhecedores de Lisboa.

A Associaçâo de Alfama recusa-o liminarmente, na forma e local onde estava previsto porque "Entendemos que o museu judaico é importante. Só que entendemos que o projeto da Câmara vai descaracterizar aquele largo, pressionar ainda mais aquela zona do bairro". Aliás essa Associação recomenda que os edifícios cuja demolição estava/está prevista sejam reabilitados e devolvidos à função habitação, como sinal do ponto de vista do município e aponta vários endereços junto ao Jardim do Tabaco.

Juntou-se aqui, como se percebe, um belo caldinho.

Sem dúvida e todos o sabemos, que Lisboa teve uma judiaria e uma mouraria. A presença dos judeus é, aliás, anterior à nacionalidade portuguesa e anterior à dos mouros islamizados, vindos quando da integração da Península Ibérica no império árabe. Ter um espaço de memória é mais que natural.

Por outro lado, estamos perante mais uma intervenção arquitectónica contemporânea, a inserir num percurso, profundamente marcado na Lisboa dos nossos dias, que é a subida ao Castelo e a passagem pela Sé. O local até parecia adequado.

Por outro lado, ainda, estamos perante uma pressão da indústria turística que procura, por todos os meios, acrescentar motivos de interesse e curiosidade a quem visite e permaneça em Lisboa. Mais razões, para ser a li, portanto.

Por outro lado, também, estamos perante uma comunidade que não aceita que decidam nas suas costas algo que lhe desorganiza a vida e o sentido de lugar.

Poderia continuar, pois existem outros argumentos, mas, de propósito, deixo aqui esta lista e renovo o título: A comunicação que existe pouco.

Se em Angra temos a questão, candente, do Mercado Municipal, em Ponta Delgada tivemos, há alguns meses, uma polémica sobre um solar/palacete e existem alguns “terrenos” (leia-se ruínas) expectantes.

O interesse que o tema tem, para mim, e acredito que terá, para nós todos, nos Açores, é perceber e aceitar que o sentimento de quem mora, habita e ainda dá vida aos lugares é tão ou mais importante como o de quem projecta, quer investir, ou governa, transitoriamente (em democracia é assim) esses mesmo lugares.

Património, como o que se discutirá no Pico, por estes dias, é Herança e Identidade! Convém não esquecer!

 

Colunista:

Francisco Maduro - Dias

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