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PEDRA À VISTA?

Sexta, 11 de Maio de 2018 104 visualizações Partilhar

Quase não há dia em que alguma pessoa, seja na rua seja nas redes sociais, não comente o facto de certas pedras trabalhadas e emolduramentos estarem a ser pintadas e coloridas.

“As cantarias a serem pintadas”, “a beleza da pedra à vista”, o “ocultar o testemunho de um belo trabalho de pedra”, etc., são expressões habitualmente utilizadas.

Digamos que não deixam de ter razão, tendo em conta que o nosso pensamento actual deriva do pensamento romântico dos anos de oitocentos, mas, em boa verdade, a questão não é tão simples.

Primeiro recordemos a surpresa de muitos quando foram descobertos restos de pintura sobre as esculturas do Pártenon, em Atenas. Aquela brancura do mármore ou da rocha calcária, proclamada pelos escritores românticos, afinal não era para ser vista. Os blocos de rocha que deram origem ao famoso templo da Acrópole, eram, simplesmente, blocos trabalhados para servirem de base a pintores e decoradores que se encarregavam de pintar, de cores mais ou menos berrantes, as peças esculpidas.

De facto, o sentimento romântico da pedra à vista tem muito que se lhe diga e nem o mármore se salva porque o que aconteceu e acontece, a menos que se queira gastar rios de dinheiro, é que as pessoas, ao quererem construir algo iam, simplesmente, à pedreira mais próxima, acontecendo que, na Grécia e Itália, o mármore é, mesmo, muito abundante. Tão abundante como é, para nós o basalto.

No fundo, a cor, as cores, aparecem para dar brilho e realce, mas, mais do que isso, para mostrar a todos que o indivíduo, a comunidade ou a organização, têm posses financeiras capazes de suportar o pagamento a um artista por um trabalho demorado. Numa terra qualquer de Itália ou Grécia era fácil encontrar pedra mármore ou pedra calcária de qualidade. A possibilidade de ostentar riqueza, de mostrar a uns e outros essa diferença social só se conseguia, primeiro, pela qualidade dos emolduramentos e pedras, depois, pela qualidade da decoração pintada sobre esses mesmos elementos e outros elementos de maior requinte.

Quando se vê mármore a ser pintado de mármore ou, até, madeira a ser pintada de madeira, percebe-se que é isso que está em causa e, nas nossas igrejas barrocas, se temos, por um lado, madeira a fingir mármore, também temos madeira a fingir madeira.

Nem interessa falar da qualidade da pedra destas ilhas, nem toda ela capaz de aguentar as intempéries. O que importa é perceber-se que a pedra à vista, ou a madeira à vista, podiam ser – e eram na maioria das vezes – situações entendidas como de manifesta falta de posses ou de capacidade de realização. Tudo isso a juntar à tal vontade de requinte.

Não quero com isto dizer que todos os trabalhos de cantaria foram caiados ou pintados, em alguma altura da sua existência, mas que a maioria foi, é o que se pode concluir da investigação que tem sido feita, levando à ideia que as nossas cidades eram coloridas nos seus emolduramentos, de um modo bastante garrido, diga-se de passagem.

Colunista:

Francisco Maduro - Dias

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