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Um projecto crítico na Praia da Vitória

Terça, 08 de Maio de 2018 196 visualizações Partilhar

A Câmara Municipal da Praia da Vitória começou a promover uma série de Debates sobre a sua cidade. Como encara essa iniciativa?

Vejo esse projecto de modo positivo e com expectativa, tanto mais quanto o mesmo parece, em declarado princípio, pretender contribuir para pensar e fazer pensar o futuro, de modo participado, aberto, livre e público.

– Esse primeiro e promissor sinal, apelo e convite à participação da sociedade civil, poderá talvez constituir, tanto pelos temas formulados como pelos participantes e moderadores, por certo intencionalmente escolhidos para os diferentes painéis, uma relativa garantia para encarar desafios realmente existentes e construir “soluções exequíveis e consensuais”.

Devo ainda salientar o facto dos membros dos painéis não serem reconhecidamente afitos aos sectores político-partidários que vêm sustentando e governando ultimamente o concelho da Praia...

– Tal projecto deverá assim, com certeza, ultrapassar um mero concurso de ideias para marcar efemérides ou campanhas pontuais...

Parece-lhe poder tratar-se de um projecto equívoco ou artificioso?

Não creio, e oxalá não o seja, atendendo ao perfil cívico, técnico e ético das pessoas envolvidas.

– Trata-se, porém, indiscutivelmente, de uma arma de dois gumes, que poderá ser interpretada, aproveitada ou instrumentalizada, de vário modo, para cerceamento de possíveis demarcações críticas a assumir face às comprometedoras agendas institucionais e pendentes imbróglios que esta Câmara herdou, quando não até em confronto com a poderosa e hegemónica dominação do aparelho terceirense, regional e nacional do PS!

O futuro da Praia passará inevitavelmente pela ultrapassagem dos problemas actuais. Como caracterizaria a presente situação?

Esta complexa e difícil conjuntura é resultado de um longo processo histórico-político, socioeconómico e sociocultural, cujas raízes e causas assentam em remotos factores endógenos e exógenos, proximamente acumulados e vigentes desde meados do século XX, passando pela Revolução de 74 e por todas as governações da Autonomia!

– Desses relembro apenas, a estudar para compreender, os seguintes:

A chegada (agora downsizing) de tropas, instalações e estruturas logísticas estrangeiras, ligadas à concessão de facilidades e contrapartidas nacionais e regionais na Base das Lajes, com abdicações de soberania e episódios predadores de territórios identitários e patrimónios naturais (veja-se a contaminação ambiental), a par da colateral edificação de um microcosmos desenvolvimentista, de desejável vida melhorada e prosperada mas arriscadamente efémera ou provisória porque sem confluente reinvestimento de fundo reprodutivo, prospectivo e autosustentado;

- consumação de opções e ditames inconsequentes das sucessivas e controversas governações açorianas e continentais (de todas, repito, sem excepção!);

- esvaziamento do papel liderante, ou ausência de elites concelhias e de ilha na discussão e definição dos planos e planeamentos locais e do arquipélago (bastas vezes apenas esboçado no populismo de uma inócua retórica bairrista), com a inexistência, falência ou dependência de um sólido tecido social, empresarial, cultural e cívico envolvente;

- reprodução de mecanismos de condicionamento e governamentalização do espaço público, privado, mediático e decisório;

- partidarização totalitária das formações, organismos, agentes e atores socioprofissionais e político-administrativos,

e – enfim – tudo isso e o mais que fica para outra ocasião referir, num (previsível e aliás anunciado...) quadro internacional, geoestratégico e diplomático desfavorável às especificidades da Praia e da Terceira, atirando esta terra para situações de impasse, incerteza, bloqueio ou decadência societária, que as suas gentes angustiadamente sofrem e da qual legitimamente se ressentem, apesar da sua resiliência, aspirações realistas (e utópicos sonhos...) de desenvolvimento, respeito e dignidade!

– O primeiro e urgente passo para solucionar esta crise deveria pois passar pela percepção aprofundada e pelo rigoroso estudo sistemático dos factores e condicionantes aqui apontados, para que, a partir daí, se pudesse então tentar superar o triste estado de coisas a que chegámos, fazendo e cumprindo o que está longe de ser sequer pensado...

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(*) Texto transcrito da Entrevista concedida ao jornal “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 8 de Maio de 2018).

 

 

 

Colunista:

Eduardo Ferraz da Rosa

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