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ACABAR COM A TÉCNICA DA DESTRUIÇÃO

Sábado, 14 de Abril de 2018 213 visualizações Partilhar

A recente polémica acerca da possibilidade de engenheiros assinarem projectos de arquitectura é a ponta de um iceberg que tem origem na separação entre engenharia e arquitectura, nos idos da idade média europeia, quando ambas eram uma só coisa.

Não vou discutir, aqui, esse assunto, mas a polémica levantada leva-me a questionar, isso sim, que lugar é, afinal, o do património edificado, especialmente estando nós no Ano Europeu do Património Cultural.

Com os novos programas informáticos auxiliares do cálculo e com os novos programas de desenho em computador, cada vez mais se assiste à implantação de uma metodologia de intervenção no edificado onde a conservação, recuperação, reconstrução e restauro, simplesmente não são tidos em conta, ao mesmo tempo que toda a sabedoria tradicional, com provas dadas e contendo informação que importa recolher analisar e reproduzir, vai sendo deixada morrer, apesar de todos os prémios e foguetório, em dias lembrados.

Lembro-me de uma conversa, paradigmática, que me aconteceu, por alturas do sismo de 80. Falava-se do sistema de pilares e vigas e eu perguntei, a um engenheiro amigo, como é que isso auxiliava a manter as paredes existentes. A resposta veio, simples: “os pilares e vigas são metidos nas paredes e permitem a segurança da estrutura toda”. Nova pergunta minha sobre o que é que se passaria num próximo abalo de terra maiorzinho. Resposta: “a estrutura mexe, em conjunto, e, se for muito violento, os miolos soltam-se, mas os pilares e vigas ficam e podem ser preenchidos com nova alvenaria”. Terminei comentando que, assim, o que restava das paredes antigas, que era suposto serem salvaguardadas pelos ditos pilares e vigas, acabava por ir, de vez, para o lixo. “De facto”, foi a nota final da conversa.

Certamente, agora, algumas novas técnicas construtivas existirão, mas a questão que me preocupa é que, enquanto se discute de que modo arquitetos e ou engenheiros podem intervir em projectos, pouco ou nada existe que obrigue a uma especialização efectiva no que toca a intervenções em edifícios existentes.

Não admira, pois, que a tendência dos técnicos seja considerar um edifício existente como um trambolho e um incómodo, e que as intervenções acabem por ser tudo menos o que deveriam ser, a começar nas ideias da arquitectura e a acabar nos projetos de estabilidade, causadores de inúmeras demolições, para que a estrutura, prevista pelo computador, possa, afinal, caber no edifício.

A polémica e a discussão, com todo o sentido, acerca das tarefas que cabem a cada um, deveria ser completada por outra, muito mais essencial, do ponto de vista de um ano europeu que merece ser comemorado como deve.

Os técnicos chamados a intervir em património classificado devem ter uma formação, pós-licenciatura e mestrado integrado, em recuperação, conservação e restauro. A menos que haja um curso completo nesse âmbito. Só assim teremos técnicos habilitados e intervenções de qualidade, em vez de tiro aos pombos, na maioria dos casos.

Colunista:

Francisco Maduro - Dias

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