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ARTES INÚTEIS, OUTRAS NEM TANTO

Sábado, 03 de Março de 2018 337 visualizações Partilhar

Esta manhã reconheci que o meu frigorífico já começa a ter pouco espaço!

Quer dizer… lá dentro, e bem arrumadinhas as caixas, costuma haver sempre algum. Aquilo a que me refiro é ao espaço na porta, por fora, onde não há semana em que não apareça mais alguma placa magnética, daquelas decorativas ou de recordação que todos conhecem.

A ideia, em si, é interessante e útil. A gente tem um recado ou uma nota para se lembrar e pode pôr ali, bem diante dos olhos. A questão é que são muitas, costumam ser bonitas, e a gente não tem coragem de as deitar fora, sobretudo se se lembrar de quem ofereceu ou que memória guardam.

Há anos havia umas cenas em madeira, emolduradas, representando miniaturas de uma cozinha, com mesa, prateleira, garrafa, copo, às vezes uma janela… As maiores tinham, todas, uma caixinha de música acoplada com uma chave de corda.  Dava-se à corda e a música era, normalmente “uma casa portuguesa”.

A curiosidade dessas cenas miniatura, emolduradas, era o rótulo da garrafa, pois o resto era mais ou menos igual. Lembro-me de algumas com rótulo Porto, outras Madeira, outras Dão e uma, só vi uma vez, tinha o rótulo Biscoitos. Apenas o rótulo dava um arremedo de identidade regional a cada quadro.

Trago aqui o assunto porque me caiu nas mãos, outra vez, uma separata do Boletim do Instituo Histórico da Ilha Terceira, de 1955, onde se publica, já postumamente, um trabalho de Luis Ribeiro. Chama-se “Indústrias Terceirenses de Carácter Artístico e sua Valorização”.

O trabalho apoia-se num inquérito que a Junta Geral do Distrito de Angra havia feito, pouco antes, e procura extrair conclusões e consequências.

Passa ele pelos trabalhos em ferro, em serralharia, em bordado, em tear, em cerâmica, em pedra, em madeira, e muitos outros. Recupera receitas, salienta objectos, refere saberes vários e distintos, já então alguns a caminho do esquecimento.

Mas não se fica por aí e isso é, para mim, o especial e fundamental carácter deste trabalho. Luis Ribeiro insiste, a cada canto ou virar de página, naquilo que é, afinal e, bem vistas as coisas, o cerne da sua intenção: a valorização!

Uma valorização que devia passar, entendia ele, não apenas pela manutenção, mumificada(?), dos saberes, mas sobretudo pela sua reutilização em antigos e novos objectos, pela renovação do seu uso pela descoberta de novos usos.

Amante, conhecedor e estudioso da nossa herança cultural, Luís Ribeiro entendia que a preservação só poderia resultar da valorização de cada uma dessas artes e, principalmente, que a sua utilidade seria a âncora fundamental da continuidade desses saberes. Entenda-se que a ideia de utilidade abrangia a emoção estética e, por isso, falava ele do “carácter artístico”.

Agora que o turismo nos desagua pela porta dentro urge revisitar este e outros textos e perceber o sentido de futuro que transportam consigo.

Colunista:

Francisco Maduro - Dias

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