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O ESPÍRITO DAS COISAS

Segunda, 19 de Fevereiro de 2018 334 visualizações Partilhar

Durante as semanas da Quaresma, que antecedem a Semana Santa, é vulgar ver, pelos Domingos adiante, Procissões de Passos, percorrendo ruas e estradas.

São fáceis de reconhecer, sobretudo pela presença, obrigatória, de um andor com a imagem, ajoelhada, de Cristo, com a cruz às costas, normalmente vestida com roupagens roxas, habituais nos rituais católicos da Paixão, e podem ser acompanhadas por mais ou menos pompa e mais ou menos cenografia acessória. Saliente-se, entre outros, os meninos que levam os instrumentos da Paixão, a imagem de Nossa Senhora da Soledade e “a Verónica”.

Quem se dedique a rebuscar informação irá perceber, rapidamente, que elas entroncam na Via Sacra ou, melhor dizendo, na Via Dolorosa ou Via Crucis, de Jerusalém, o percurso de Cristo a caminho do Calvário, já que existe outra Via Sacra, em Roma, que tem esse nome por se tratar da via que era usada, em parte, para os cortejos de triunfo da Roma imperial.

Mesmo antes das cruzadas, os peregrinos, idos à Cidade Santa, tendiam a reproduzir, uma vez regressados às suas terras, essa caminhada, mas evidentemente que o movimento gerado pelas campanhas militares e a presença, naquela região do médio Oriente, de muitos e muitos peregrinos e combatentes, ampliou essa vontade de a repetir. Os franciscanos tiveram, também, grande influência na sua divulgação.

À falta do verdadeiro caminho, que atravessa a cidade velha, cada grupo de peregrinos, regressado à sua terra, procurava reviver a experiência, encontrando um caminho rural ou um traçado de ruas mais urbano, capaz de permitir a recordação desses momentos, vividos durante a peregrinação, e, assim foi crescendo o hábito, por toda a Europa medieval e daí para zonas abrangidas pelo cristianismo, de relembrar o percurso de Jesus a caminho do Gólgota.

O próprio número de estações ou paragens de meditação foi sendo modificado ao longo do tempo, acabando por se fixar em 14, no Século XVI.

Enfim, quem quiser documentar-se tem abundante informação sobre o tema, seja em suporte papel seja na internet.

O que aqui me traz é, principalmente, essa ideia, bem interessante, da “re-presentação”, que quer dizer, precisamente, voltar a tornar presente.

Não posso deixar de recordar, aqui, uma das primeiras procissões em que participei, na Quaresma de 1980, poucos meses após o grande sismo que destruiu Angra e não só.

Vejo – e sinto – como se fosse hoje, a viva impressão de passar com o pesado andor e a grande imagem oscilando sobre ele, por cima de um enorme enfeite de cantaria, que havia caído do topo da frontaria da igreja do Colégio de Angra, e estava semi-enfiado no chão de calçada, bem diante da porta principal do templo. As ruas, à noite, escuras e com falta de iluminação, davam um aspecto estranho ao conjunto. Faltava gente e a maioria das casas estava abandonada e deserta, mas a Procissão fez-se! Como voltará a fazer-se, este ano. Essa e as outras que por esses Açores abaixo voltam à rua.

Nada melhor para um ser, como o humano, que vive muitíssimo do que vê e bastante do que sente, do que voltar a colocar diante dos olhos, ainda que por momentos, algumas cenas destas, se se pretende questionar e reflectir sobre as coisas que se fazem e o seu significado.

 

 

Colunista:

Francisco Maduro - Dias

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