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O BARATO SAI CARO

Sábado, 03 de Fevereiro de 2018 373 visualizações Partilhar

Vejamos uma pequena história, que se passou comigo, vai para 20 anos.

Acabara de frequentar uma acção de formação da administração regional, na Calheta de São Jorge.

Na época havia várias, todos os anos, e tanto podiam acontecer em Angra como no Nordeste, em Santa Cruz das Flores ou em Ponta Delgada. Os temas também variavam muito.

Interessa dizer isto porque aconteceu uma conversa interessante, depois de regressar dessa tal formação.

Perguntei porque razão o curso fora marcado para e realizado na Calheta de São Jorge, sendo que a maioria das pessoas não era, nem sequer, de São Jorge e o curso, relacionado com comportamentos em contexto de administração pública, bem poderia ter sido organizado e ministrado em qualquer ilha.

A resposta, de um então responsável por essa organização, foi e é, para mim, extremamente interessante. Disse ele qualquer coisa como isto: “Achamos que, assim, estamos a criar Região! As pessoas conhecem-se pouco, e vivendo numa ilha, tendem a esquecer as outras ou a valorizar pouco o que se passa nas outras, por comparação com a sua”, e completou: “Quando se reúne um grupo de gente da administração num lugar, durante algum tempo, a interacção entre todos passa para além do vulgar olá. Estão, durante o dia, na sala, têm de fazer trabalhos de grupo e, ao final, acabam amigos, muitos deles.

Quando regressam a casa e à sua ilha, se tiverem uma dúvida, até telefonam para esse ou essa colega, que pode estar e viver na outra ponta do arquipélago, para esclarecer essa dúvida.

Alguns, depois de terem estado uma semana, numa ilha que não é a sua, acabam por voltar, no verão normalmente.”

Acabada a conversa, fiquei com a frase inicial: Criar Região!

No meio do resto da conversa ficou claro, para mim, que quem tinha estruturado as coisas daquela maneira sabia que se estava a gastar mais dinheiro, enviando formandos para ilhas que não eram as suas. Seria mais económico reunir cada grupo na ilha onde mais formandos residissem. As outras ilhas, porém, continuariam fora do horizonte.

Como várias vezes tenho deixado escrito ainda estamos muitíssimo longe de ser, de facto, uma Região. Continuamos a ser, muitíssimo mais, ilhas separadas, e isso prejudica todos, desde o topo dos decisores à base da população habitante e isso sai caro, muito caro, em termos do resultado final económico, cultural, social.

Se queremos, realmente, ser uma Região que ultrapasse o escrito nos papéis, temos de saber criar modos de forçar - escrevi mesmo forçar - as pessoas a circular e a permanecer aqui e acolá, nestas ilhas.

 

 

Colunista:

Francisco Maduro - Dias

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