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Das aulas de desenho ao agora

Segunda, 13 de Novembro de 2017 162 visualizações Partilhar

Quando penso que já acabei a licenciatura que escolhi e que, de certo modo, sempre quis, relembro as pessoas que moldaram o meu percurso na escola e que talvez me tenham dado a força para ultrapassar as dificuldades do caminho escolhido.

Existem pessoas que nos marcam pelos elogios que nos fizeram, pelos valores que nos transmitiram ou pelos ensinamentos que nos incutiram. Tive professores que foram mais do que meros oradores de matéria fútil, que passa pela cabeça à velocidade do vento. Tive professores que foram educadores, que souberam dar relevância aos valores para além do conhecimento.

Aproveito para relembrar dois professores que tive de desenho. Diga-se, para ficar mais pomposo, Educação Visual e Tecnológica. Nunca tive jeito para desenhar e causava-me um nervosismo ridículo, ter de usar um compasso e uma régua para definir medidas e desenhos. Posso dizer que odiava as horas que passava na sala, em redor de projetos que passavam por usar lápis próprios, em dimensão e cor, e utensílios sequestradores da liberdade de ação das mãos e do cérebro. Nunca os cumpria devidamente. Apetecia-me chorar, tamanha era a hostilidade que tinha aos sumários que os professores escreviam no quadro de giz.

Certo dia o nervosismo tomou-me o corpo todo e fiquei imóvel, e só os olhos mexiam, fazendo lágrimas cair. No meio da aula fui episódio de escárnio interior pelos meus colegas e ponto de interrogação para os professores, que a partir dali formaram uma opinião implacável sobre mim. Em conversa particular, o professor disse que da maneira que eu era, nunca iria conseguir alcançar muito na vida e teria imensa dificuldade para ultrapassar obstáculos, pela inação que me caracterizava. Dificilmente teria boas notas no futuro e podia sofrer a vida inteira.

Das aulas de desenho e desses comentários não guardo rancor nem tristeza, mas desprezo e satisfação ao mesmo tempo. Desprezo porque sabia que iria conseguir dar uma bofetada de luva-branca ao tal professor. Conseguiria mostrar que as pessoas não se fazem e que em certos momentos da vida podem ter menos resistência à pressão. Satisfação porque serviu de incentivo. Serviu para demonstrar força e serviu para montar uma fortaleza em torno das minhas ambições e sonhos.

O rapaz nervoso, que não gostava de desenho e chorou na aula, já não precisa de recados e ameaças sorrateiras.

 

 

Colunista:

Emanuel Areias

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