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ANDO À PROCURA...

Sábado, 28 de Outubro de 2017 131 visualizações Partilhar

Estive à procura de saquinhas, daquelas de retalhos, para ir pedir Pão-por-Deus, e ainda não encontrei. Desconfio que, por este andar, vou ter de arranjar uma lanterna de Diógenes para tentar arranjar escaldadas ou, como diziam lá em casa, caspiadas... (pequenos pães de farinha de milho, ovos, erva doce..., schléép!).

Ao contrário destas coisas, que procuro e não encontro, o mundo à minha volta está cheio de abóboras, bruxas, trajos de disfarce, máscaras horrendas, pacotes de rebuçados. Pelos vistos e por via do comércio e das “leis do mercado” o Halloween parece que veio para ficar, tal como o São Valentim, em detrimento do Pão-por-Deus e do - imagine-se se pode existir casamenteiro maior -, Santo António.

Coloco a questão não porque me incomodem as abóboras iluminadas - há umas de barro do meu amigo Simas, bem jeitosas - ou algum bailarico que se organize por aí, mas porque me parece cedência demasiada, atravessada por algum - muito - desconhecimento, aceitar e substituir tudo isso por este “tudo isto”, sabe-se lá se por mais alguma razão que não seja a da novidade ou o deixar andar, “porque é moda”.

Saliente-se que nada tenho contra a moda, em si, como proposta de novidade de gosto, mas também sei que a moda-moda vive de estratégias de mercado, profundamente organizadas e orientadas para a correria do compra-compra, e a sua penetração consegue-se, com muito maior facilidade, se as pessoas não tiverem consciência da sua identidade e das suas raízes, tornando-as dependentes do que seja apregoado em cada momento.

É aqui que entra aquilo que apelidaria de crescente desestruturação dos modos de transmissão cultural entre gerações.

Mesmo numa terra como esta, onde as novidades culturais sempre foram o pão nosso de cada dia, havia um casar de intenções e atitudes, entre o que chegava e o que já existia. As comunidades tinham formas de passar as suas tradições aos mais novos, por via da família, dos pequenos grupos de amigos, das colectividades.

Hoje, porém, por via da pressão económica e comercial, pergunto-me quantos sabem que o Pão por Deus tem raízes no terramoto de Lisboa, muito embora este charivari de bruxas esteja, também, muito mais remotamente, ligado ao entrudo que antecedia o tempo de preparação do Natal, do mesmo modo que o carnaval antecede o período de preparação da Páscoa.

Não é nem saudade nem nostalgia que me move. É o ver alguém chegar aqui e, por via da moda e de uma pressão comercial brutal, substituir o que nos interessa pelo que lhe interessa.

Pior ainda é, assim sem mais, ver produtos de relevância económica e comercial, embrulhados em tradições culturais de outras paragens, entrarem, assim, de rompante, pela porta dentro.

É esta espécie de colonialismo cultural que me irrita e, sobretudo, o perceber que, pela menor resiliência das comunidades, temos de recorrer à colaboração de entidades que dantes estavam incumbidas de trazer a novidade, como as escolas, os museus e as bibliotecas, por exemplo, para compensar “modas”, cheias de aspas e vindas de um mundo global cuja matriz é muito outra.

E não digam que não pode haver negócio!

Bem explicadas as coisas podem haver dúzias de saquinhas de retalhos e milhares de pacotes com caspiadas aos pares a serem vendidos e, depois, oferecidos, por exemplo.

Para alegria nossa e de quem nos visita!

 

(... Ou esqueceram-se que, para além de nós, que aqui moramos, agora temos turistas?)

 

Colunista:

Francisco Maduro - Dias

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