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QUEBRAR COM A EUROPA DE CARLOS MAGNO

Sábado, 16 de Setembro de 2017 109 visualizações Partilhar

Para aqueles que sabem um bocadinho de história Carlos Magno foi a melhor tentativa de reconstituir o império romano do ocidente, após a sua queda e desaparecimento, no século V depois de Cristo.

Passear por Bruxelas é topar, aqui e ali, com frequência, com alusões a esse imperador e aos seus esforços de recuperar e reorganizar um espaço grandioso, sem fronteiras internas, com economia florescente e vida cultural activa.

Parte disso aconteceu, é certo, mas foi sol de pouca dura e não chegou, nem perto, à magnificência romana que lhe queriam como inspiração.

Mas foi romano em várias coisas, nomeadamente na perspectiva muito continental e pouco marítima de ver o mundo e de conceber as acções.

De facto, e voltando à História, nada como recordar que gregos e fenícios se apoiaram muito mais no mar, tal como os portugueses, enquanto que os romanos, tal como os espanhóis e vários outros países europeus, se apoiaram, sempre, muito mais em terra.

Por essa razão achei interessante trazer aqui Carlos Magno, principalmente depois de ter ouvido o interessante discurso do Presidente da Comissão Europeia, de onde o Mar e os espaços exteriores pareceu terem desaparecido.

Acrescentaria, entretanto, duas coisas que se me afigura serem mais relevantes para nós, aqui nos Açores:

Uma, a necessidade de ultrapassarmos a visão de “vaca leiteira de subsídios”, que temos de Bruxelas;

Outra, a necessidade de substituirmos a visão miserabilista de ultra periferia por uma visão construtora de pontas de lança ou espaços de diálogo, com o exterior da UE.

É que isto de estarmos todos a olhar para o nosso particular umbigo do mundo, que tem sido Bruxelas, nos últimos tempos, faz-nos ficar de costas voltadas para o resto do mundo, que fica em frente.

Se tiverem a paciência de ver, no mapa, onde ficam as chamadas RUP, percebem o que quero dizer. Guadalupe, Guiana Francesa, Martinica, Mayotte, Reunião, Canárias, Madeira e Açores, são territórios que vão desde as Caraíbas, ao Atlântico, ao Índico, situados junto de outras tantas realidades e são - ou podem ser - outros tantos pontos de contacto.

Aquilo que é designado como ultra periférico, numa perspectiva de mãe galinha que tem pena de não ter todos os filhos debaixo das asas, devia antes ser visto como ponta de lança sobre os espaços envolventes, aproveitando essa circunstância enriquecedora por todas as formas possíveis.

Por mim, por nós, aqui nos Açores, penso que devíamos “ensurdecer” Bruxelas não com pedidos de subsídios porque vivemos longe da mãe, mas porque temos um papel a desempenhar na constelação de contactos da UE.

Resumindo, temos de convencer os “descendentes” de Carlos Magno de que a Europa sem Mar não existe, e que, sem uma política, agressiva, de contactos com o exterior, será cada vez mais irrelevante.

 

Colunista:

Francisco Maduro - Dias

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