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--> Hoje, dia 19 de Novembro de 2017

O PRÉMIO ?

Sábado, 02 de Setembro de 2017 193 visualizações Partilhar

Em 2014, no âmbito de uma interessante vontade de interligar memórias da tradição criativa com origem nos Açores, com o que se produz, executa e realiza agora, nestas ilhas, o Governo Regional decidiu criar um conjunto de prémios.

Entre eles, criou o Prémio Regional de Arquitetura “Paulo Gouveia”, destinado a: “… galardoar obras de recuperação, reabilitação, reconstituição e reinterpretação cujo projeto mereça destaque por respeitar o património edificado e privilegiar a utilização de materiais endógenos, sem excluir o uso de linguagem contemporânea”.

Perguntei, há dias, pelos premiados, e a resposta nem me espantou, devo dizê-lo: até agora não existiram concorrentes…

Uma pessoa pode e deve perguntar-se das razões e elas, em boa verdade, podem ser várias, desde o valor do prémio à, eventual, fraca divulgação do mesmo, ou à interligação entre vertentes raramente concordantes do pensamento e acção, quando se trata de intervir no já construído.

Porém, podem existir outras razões, que gostaria de ver negadas, aqui, se for o caso, para meu descanso de alma e clarificação de situações e equívocos, pois me parece que são elas a justificação maior desse deserto de candidaturas. Resumem-se num simples e absoluto desinteresse pela temática e, sendo assim, há vários “culpados” e várias “culpas”.

De facto, basta ver a quantidade de edifícios destruídos, nestes últimos anos, onde apenas se deixou uma fraquíssima memória do existente, se é que se deixou; basta ver a quantidade de intervenções que privilegiam o uso do aço corten, da madeira de carvalho ou de pinho, do alumínio lacado ou do aço polido, do cimento ou do ferro; basta ver a facilidade com que se podem comprar e ter descontos na aquisição de materiais e equipamentos que nada nos dizem, nem à memória, nem à identidade, nem às condições climáticas de implantação e uso, mas que favorecem os negócios de quem está nesse negócio da construção;  basta ver o sistemático incentivo à “novidade” e ouvir a eterna pergunta “o que é que tem de ficar?”; basta ver o progressivo desconhecimento de tantas técnicas, saberes e materiais relacionados com a manutenção, conservação, restauro ou intervenção simpática para se perceber, facilmente, que nada nem ninguém incentiva qualquer iniciativa, enquadrável nos objectivos do prémio.

Quer o patrono dele, uma personalidade como Paulo Gouveia, quer a interessante simbiose proposta pelos seus criadores, merecem um outro olhar, mais positivo e interessado.

 

Colunista:

Francisco Maduro - Dias

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