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DISNEY AZORES?

Segunda, 26 de Junho de 2017 142 visualizações Partilhar

A qualidade do património que se tem depende da nossa capacidade e interesse em o conservar;

A nossa capacidade e interesse em o conservar dependem do que sabemos acerca dele;

O que sabemos acerca dele tem a ver com a forma como conseguimos ligar ideias e objectos e edificações.

Resumindo: a materialidade vale pela imaterialidade e vice-versa!

Vem isto a propósito de várias personalidades gradas da nossa Região terem enveredado, desde há algum tempo, pelo caminho interessante de falar da imaterialidade das coisas, dizendo que, mais do que a arquitectura ou o casario edificado num certo lugar, o que é relevante – e usa-se muito o caso de Angra do Heroísmo como exemplo – é a história ou histórias e factos que sucederam por ali em volta.

Isto de separar material de imaterial foi uma ideia bonita da UNESCO, mas são muitos os profissionais e interessados nas questões do património cultural que acham profundamente desinteressante e, até, errada, esta divisão.

Sim, porque uma navalha de enxertia não é bonita nem relevante só por ela, ela é muito interessante porque se percebe que foi feita para alguém poder enxertar. Do mesmo modo a nossa Catedral, em Angra, é interessante pela sua materialidade, claro, mas muito mais interessante se tivermos em conta que ela foi feita num contexto novo, quando passou a ser muito mais importante ter a frente voltada para a rua principal da nova cidade que crescia – e, assim, marcar o espaço e dominá-lo -, em vez de ter o altar-mor voltado para Jerusalém, onde Cristo fora cruxificado, como se vê na Matriz de São Sebastião, em Ponta Delgada, prova da sua maior antiguidade.

Em boa verdade o património é feito dessas duas componentes: a material e a imaterial. Se for um alguidar de barro, na mão de quem sabe fazer alguidares, e junto de um monte de barro ou num cerrado que tenha uma camada de barro por baixo, temos o material, a técnica e o saber, e o produto final. De pouco serve ter, apenas, o alguidar, mas ter quem saiba e não ter o resultado, material, desse saber, vale muito pouco, também.

Claro que podem vir com a ideia de que o Fado ou a Arte Chocalheira (de que temos na Terceira um representante, também) são bons testemunhos desse tal património dito imaterial, mas o fado precisa do som e das guitarras, do xaile e do resto, da mesma forma que a arte chocalheira só se vê quando um chocalho aparece feito pelas mãos de quem o sabe fazer, ou seja, só se percebe, sente e vê, quando alguma materialidade é acrescentada.

Enfim, venho com isto tudo a terreiro, porque falar de património edificado, por exemplo, e dizer que se tem orgulho nele, de pouco serve se se continuar a admitir fachadas de cartão, janelas de plástico, demolições integrais ou quase, tornando os Açores numa espécie de parque temático de faz de conta… o que me parece não ser o que o mundo espera de nós a ajuizar pelo tipo de prémios que têm sido atribuídos.

É urgente e fundamental recuperar técnicas, materiais e saberes, por um lado, e manter e valorizar o que existe feito por outras mãos antigas, onde podemos estudar e reaprender a fazer. É ESSA A FUNÇÃO ESSENCIAL DO PATRIMÓNIO!

 

Colunista:

Francisco Maduro - Dias

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