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SANTOS E ANIMADORES

Sábado, 15 de Abril de 2017 326 visualizações Partilhar

Aqueles que se lembram dos nomes dos navios de Vasco da Gama devem estar recordados que uma das naves se chamava São Gabriel e, outra, São Rafael. É essa, aliás, a razão da actual designação das duas lindas torres que ladeiam o centro comercial Vasco da Gama, no Parque das Nações.

A escolha dos nomes para um navio era uma questão séria. Escolhia-se, habitualmente, uma figura sagrada ou santificada, no sentido de procurar protecção contras as tempestades, ventos, marés e angústias da navegação acidentada daqueles tempos.

A longa lista das naus que passaram à India, durante os séculos da pimenta e das especiarias, está cheia de nomes invocando Nossas Senhoras, Santos e de Arcanjos.

O laicismo oitocentista trouxe orientação diferente e a Republica, de 1910, encarregou-se de usar nomes como “República” ou “Almirante Reis”, para renomear os componentes da esquadra criada pelo ministro terceirense Jacinto Cândido.

Passava-se, assim, de um período em que os nomes indicavam a busca de protecção para um período em que os nomes indicam a busca de inspiração ou denotam clara intenção comemorativa.

Nomes de rios, serras, enseadas ou baías, nomes de terras e lugares, aparecem escritos nas proas dos navios e pode-se afirmar que o romantismo, vivido por muitos espíritos empreendedores da época, escancarou as portas à ideia de se colocar em evidência personalidades várias, como que buscando, para os navios assim nomeados, a inspiração que essas figuras podiam emprestar às embarcações, sobretudo aos vasos de guerra e naves de grande porte.

Seja por via do desejo de proteger as naus, buscando a protecção dos céus, seja por via da intenção de celebrar personalidades e evitar o esquecimento dos seus feitos e nomes, o certo é que, durante séculos, essa foi uma tarefa levada a sério.

Nem sempre os resultados eram os melhores, mas o esforço era honesto. Recordo-me do que se escreveu, no Diário Insular de então, quando foi dado o nome de Vitorino Nemésio a um porta-contentores… Fazia-se chalaça com a ideia de uma notícia que dissesse, por exemplo, que o Vitorino Nemésio se encontrava no Porto da Horta a receber carga, sabendo todos a figura franzina do escritor e a sua óbvia dificuldade em transportar peso.

Mudando para os aviões, não posso deixar de recordar o sentido de oportunidade e a beleza de nomes como o de Bartolomeu de Gusmão, dado a uma aeronave de longo curso da TAP onde tive o prazer de voar várias vezes.

Eis que surgiu agora, entretanto, a polémica em torno de um “Cristina”, que voaria pela mão da transportadora aérea regional, como que inaugurando uma outra linha de nomes, inspirada noutra forma de ver, sobretudo orientada para a publicidade imediata e o mercado e que tem, a julgar pelo modo como se espalhou a notícia, os seus seguidores.

Espero que o golpe publicitário se mantenha, apenas e só, como tal, pois uma Região, como a nossa, deve aproveitar todas as oportunidades para divulgar personalidades, vidas, atitudes inspiradora de futuro, das muitíssimas que estas ilhas têm, sendo por muitos dito, até, que, por região do país, somos uma das que mais tem.

 

Colunista:

Francisco Maduro - Dias

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