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TRILHOS, CORRERIAS E RECURSOS BORDA FORA…

Sábado, 18 de Março de 2017 226 visualizações Partilhar

Com um esforço de assinalar têm vindo a ser criados, desenhados e mantidos, alguns trilhos pedestres nas diversas ilhas dos Açores.

Não é coisa nova no país, nomeadamente os – bem recentes – do rio Paiva ou os vários que existem, desde há décadas, na Madeira.

Venho a terreiro, entretanto, não por causa desses, mas por causa dos que a gente tem vindo a ver serem criados por aqui, nestas ilhas, pois não se está, em absoluto, a aproveitar tudo o que se poderia ter e isso prejudica, muito!

Tanto quanto sei e está divulgado, os trilhos criados procuram mostrar aspectos da paisagem e da vegetação, tendencialmente buscando curiosidades e endemismos ao mesmo tempo que mostram belezas paisagísticas.

Ora acontece que nem todos os eventuais utilizadores são os que foram previstos quando da criação destes percursos, seja porque uns são idosos e, em boa verdade, não se deviam meter tanto “por terra dentro”, seja porque outros vêm sobretudo preocupados em fazer quilómetros e quilómetros a pé, sem grande preocupação quanto ao que existe, de uma lado e doutro do lugar onde põem os pés.

Há tempos um dizia-me que esperava fazer mais de 50 quilómetros em poucos dias, em duas ilhas, antes de ir subir o pico do Pico onde esperava ter uma cadência mais rápida que a média dos que fazem a subida. Estava eu, portanto, perante um indivíduo que via os trilhos na perspectiva do atleta de corrida fundo e não na perspectiva do apreciador da natureza, dos seus endemismos e ecossistemas, e do modo como o ser humano se integrou e os integrou, num povoamento secular e esforçado.

Será para andar a correr por eles que esses trilhos foram feitos? Será para isso que se abre portas a áreas de alguma delicadeza e sensibilidade, no que respeita a vegetação?

Mas há mais! Na ilha Terceira, por iniciativa de uma autarquia, surgiu um trilho, bem interessante, que relaciona algumas fortificações da costa com zonas de povoamentos de aves e acontecimentos históricos relevantes. Entretanto, aquilo é uma confusão que merece ser deslindada e aproveitada para se criar uma outra linha de percursos com tipologia diferente, abrangendo recursos que estão a ser deixados de fora.

Refiro-me ao trilho das fortalezas da costa de São Sebastião. Por um lado a baía dita ali das Contendas não é conhecida como tal do ponto de vista da História e do maior desembarque espanhol do século XVI. É, sim, Baía das Mós. Um pico próximo é que será “das Contendas”, associado a um outro problema, surgido nos tempos da colonização e povoamento.

Depois e principalmente, aqui por razões de tipologia dos trilhos actualmente em vigor, nem todas as fortalezas da costa de São Sebastião fazem parte do trilho, nem a história do que foi a resistência a Filipe II fica bem contada, porque, por causa de alguns quilómetros de asfalto, conta-se a Batalha das Mós – a tal que está pintada no Escorial -, mas não se conta a da Salga…. História incompleta, lugar incompleto, percurso incompleto, recurso, muito bom, deitado borda fora.

Talvez seja altura de se ter, a par de trilhos para andar a ver, trilhos para quem queira correr sem ver, e trilhos mistos onde se misture o rico património natural que temos com a ainda mais rica história que temos. Até se diversifica a oferta, como soe dizer-se.

 

Colunista:

Francisco Maduro - Dias

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