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RENOVAR O GOSTO, (OUTRA VEZ)

Terça, 21 de Fevereiro de 2017 207 visualizações Partilhar

De vez em quando releio coisas que escrevi a ver o que foi feito ou o interessa renovar. Parece-me bem, neste anos em que muito se olha para o turismo, que valia a pena reler isto que escrevi em 2010, porque, cada vez mais, o turismo, invadido por automatismos e possibilidades informáticas de conteúdo instantâneo, requer a humanidade do contacto próximo. É aí que os povos destas ilhas podem fazer a diferença e os guias e agentes encontrar espaço de actividade. Mas, para isso, é preciso gostarmos, conhecermos e sabermos animar o que temos e nos rodeia.

Diria que turismo interno – muito turismo interno – precisa-se, para que esse turismo que nos entra agora seja alimento e não condenação.

 

“A gente mora num sítio e esquece-o.

A gente habita numa rua e nem lhe liga.

A gente passa todos os dias numa esquina e deixa de a ver.

É assim!

Fazemos quase o mesmo com alguns amigos. Não porque não gostemos dessas pessoas mas porque as temos por adquiridas na nossa paisagem pessoal.

Contamos com eles todos os dias, como se estivessem ali de pedra e cal, imunes ao tempo e às intempéries, para todo o sempre.

Mas não é assim, como se sabe.

Um belo dia o amigo morre, viaja de vez para outro sítio, emigra, envelhece e deixa de poder jogar à bola (nós também!).

O mesmo acontece com os lugares, as ruas, os sítios, as paisagens. A gente deixa que mudem a esmo e sem respeito, em vez de mudarem com cuidado e delicadeza.

Deixa que plantem e arranquem; que digam e que façam, sem nos metermos nisso… sem sequer darmos por isso. Então ficamos surpresos e tristes.

Às vezes acontece, também e simplesmente, que essas coisas, sítios e lugares, se tornam como que transparentes, de os vermos todos os dias ou, até, várias vezes ao dia.

Vem isto a propósito destas ilhas que temos e teimamos em esquecer, em lamentar, em desfazer, em passar ao lado.

Porque a paisagem que nos rodeia, feita de lugares, cores e formas, é tão importante como a paisagem que nos envolve o coração ou um abraço amigo que nos envolve o corpo, em dia de tristeza ou felicidade.

O modo como decidimos vencer ou ser vencidos, em cada dia que passa, tem a ver, por muito que custe a alguns aceitá-lo, com todas essas paisagens, desde o abraço ao horizonte.

De vez em quando, alguém – vindo de fora, como se costuma dizer –, decide apreciar e referir-se – em tom de elogio – a alguma coisa. Então a gente até olha em volta, acha graça ao que vê e acorda. Mas logo passa o impulso e, dois ou três dias depois, voltamos a ficar cegos.

É por isso que importa saber renovar o gosto por esta terra, todos os dias!

Quantas vezes não ficamos a olhar para um postal, uma imagem na TV, uma fotografia num blogue na Rede, mostrando um lugar de todos conhecido, destes daqui ao virar da esquina ou da curva do caminho, e ficamos espantados da beleza e da qualidade desta terra que temos para viver…

….

Mas que fique claro!

Isto não é um poetar frouxo, em tempo de comemorações ou para levantar os ânimos.

O que se pretende aqui e agora é dizer que somos nós os cegos quando não vemos, os surdos quando não ligamos, os mudos quando não nos espantamos – todos os dias – pela qualidade, beleza e recursos desta terra, que existem à espera de se olhar para eles, com olhos de ver.

Porque, para que qualquer plano ou ideia de desenvolvimento o seja verdadeiramente e funcione, há que gostar do lugar onde se mora e de descobrir-lhe o brilho e a intensidade da vida.

 

Renovar o gosto…

…todos os dias, é preciso!”

 

Colunista:

Francisco Maduro - Dias

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